Manuel Serra: O Conde e o Reino “A hora da Fenix”

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De tempos a tempos a Fénix anuncia-se:

Os dias atuais são dolorosos e apreensivos, a acrescentar dificuldade à luta quotidiana da maioria de nós. Sobreviver biologicamente neste universo inorgânico e extremo de condições físicas é tarefa gigantesca a demonstrar a resistência da vida biológica enquanto restar uma centelha de viabilidade ambiental.

O nosso planeta é um maná de oportunidades para a vida biológica e por isso ela se apresenta diversa, multiforme e bem-sucedida. Porém, viver corresponde a uma competição constante com o meio e luta com as ameaças patogénicas que, de todas as maneiras, nos tentam assaltar e que, ou por resistência física ou por defesas que cientificamente fomos descobrindo vamos, passo a passo, ultrapassando e vencendo como espécie.

Perdoem-me a crueza, mas a realidade da natureza não se compadece nem com sofrimentos, nem com piedades, nem com qualquer espécie de sentimentos protetores, apenas se afirma pela sobrevivência dos mais fortes entre os mais fortes e assim se vão aperfeiçoando as espécies da qual a espécie humana é só mais uma. Esta é uma conclusão de Darwin há muito aceite e de evidencia insofismável!

Consciente destes fatos e pessoalmente não deixando muito espaço a esperanças mais milagrosas que o sentimento deseja mas o realismo desaconselha, fica-nos somente a resiliência própria, e aqui sim, a solidariedade, a piedade e a entreajuda entre todos como solução para debelar a atual ameaça pandémica que, de forma tão profunda, afetou o mundo inteiro e nos obrigou a revermos o nosso modo de vida que vigorava até ao início da pandemia. Assim, a vida como a conhecemos será a partir de agora bem diferente e ao contrário da motivação que se lançou socialmente do vai ficar tudo bem ainda vamos primeiro passar todos pelo “vai ser tudo bem difícil;

Muitos dos hábitos e facilidades em vigor de antes serão substituídos por outros mais apropriados à ameaça omnipresente obrigando a opções que farão perecer muitas atividades económicas, bem-sucedidas, por falta de procura.

Os cruzeiros de massas, os voos low cost, os grandes ajuntamentos de pessoas em concertos, festivais, jogos de futebol com estádios cheios, discotecas, bares e restaurantes a abarrotar e até mesmo em recintos abertos como praias e parques de lazer, tudo irá ter uma enorme redução na procura nos próximos 1 a 2 anos, o que corresponde a uma revolução na organização social e económica em virtude das alterações bruscas que daí irão resultar. Porque, para além das boas práticas de distanciamento social, introduzidas pelos mentores da saúde, irão ficar vigentes, por muito tempo, as psicoses do medo do contágio que eventualmente extremarão mais as condutas sociais, porventura para além do necessário.

Diz-nos a experiência que ninguém adivinha o futuro, mas o golpe KO que sofremos agora e a forma de lhe fazermos frente faz crer que muito na nossa forma de viver terá de mudar e só desejo que, nessa inevitabilidade venha a mudar para melhor.

Uma conclusão eu retiro desta crise: Ficámos todos mais próximos e solidários porque nos apercebemos da fragilidade pessoal e da necessidade que temos de contar uns com os outros para melhor resistirmos.

Daqui que seja importante sabermos viver e celebrar os valores comuns como o 25 de Abril, o 1 de maio, o 8 de maio, o 13 de maio para quem é religioso, sem tentadoras discussões espúrias de alguns, porque não está em causa o seu festejo, mas sim a importância do seu significado que se evidencia na sua evocação para cimentar e estimular a unidade social.

As grandes catástrofes habitualmente são a oportunidade de surgirem mais cedo as inovações que já se procuravam, mais eficientes e com maiores proveitos; Esta costuma ser a face benéfica das revoluções. A Fénix representa um pássaro mitológico da Grécia antiga, que periodicamente morre em chamas e das suas cinzas logo renasce revigorado e mais pujante para novo ciclo, e por isso adotado como imagem da resistência e coragem de um povo, que agora pode ser toda a humanidade.

Por isso caros leitores, não tenhamos dúvidas nem receios porque celebramos agora também a hora da fénix.

Artigo publicado na edição de Maio do jornal Notícias da Sua Terra.

Manuel Serra

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